sábado, 27 de novembro de 2010

"Esta é a ditosa Pátria minha amada,"

Foi assim que, há cerca de 500 anos, o grandioso Poeta se referiu a Portugal, no Canto III da sua obra épica "Os Lusíadas". Se vivesse agora, que descrição faria? Talvez "Esta é a desditosa, ou infeliz, ou desventurada, Pátria minha amada" ou, pior, "Esta era a ditosa Pátria minha amada". Nunca vamos saber, mas podemos sempre imaginar, quanto mais não seja transpondo para o Poeta os nossos próprios sentimentos.

FMI - Lágrimas de crocodilo

Foi com enorme espanto que ouvi, 5ª feira, a notícia de que o FMI chegou à conclusão de que a raiz da crise financeira reside na desigual distribuição da riqueza, o que provoca um fosso cada vez maior entre ricos e pobres. Esta declaração, vinda de uma instituição financeira cuja prática tem sido dar cinco com uma das mãos, retirando dez com a outra, denota um cinismo tão refinado que até provoca náuseas.
Mas, afinal, não há motivos para espanto nem para náuseas. Aquela notícia só podia ser uma manobra de diversão. Senão, leia-se uma outra notícia publicada no mesmo dia pelo Diário de Notícias, segundo a qual o mesmíssimo FMI aconselha Portugal a pagar menos para despedir, sendo que Peritos do referido Fundo avançam com propostas tendentes à revisão do Código do Trabalho, por forma a acautelar os interesses das empresas, que poderão assim rescindir com os trabalhadores por um custo mínimo.
Pode um lobo vestir a pele de um cordeiro? Poder, pode, só que não lhe assenta bem e facilmente é reconhecido. Na primeira notícia o FMI trajou de cordeiro, e daí o meu espanto, mas quando li a segunda notícia, já ele envergava as vestes que lhe são próprias. A sua preocupação quanto ao fosso entre ricos e pobres não é por estes estarem cada vez mais pobres, mas sim porque esta situação pode impedir que os ricos continuem a ficar cada vez mais ricos.

A tragicomédia intitulada "Orçamento para 2011".

Descubra as diferenças!
A parte trágica do Orçamento vem aí e vai abater-se sobre os mesmos do costume: os trabalhadores com ou sem emprego, os reformados e a camada da população mais desfavorecida, que cada vez mais ficará excluída do direito a ter habitação digna, saúde, educação, inserção laboral e o mais grave é que terá ainda menos comida para dar aos filhos.